Os poetas
que por aqui passaram
deixaram poemas
escritos no céu/
as estrelas
versos de significados simples/
com a simplicidade
de quem chega à cidade grande
com só dois pratos de comida garantidos/
água, café e abrigo/
de sexta até meio dia de domingo/
mas com tanta fé
tanta esperança
que não enxergam as vãs promessas
e sobrevivem/
por que assim como a criança
tanta luz os poetas trazem
que raramente a treva os alcança/
sábado, 23 de janeiro de 2010
sábado, 9 de janeiro de 2010
FÉ ARRANCADA A FORCEPS
Pela primeira vez em minha vida, Tio Pannajo, veio à minha casa e não tocou o seu inseparável cavaquinho. Sequer o retirou do case. Sequer cantou. Passou o tempo todo compenetrado, ensimesmado. Ora conversando baixo com meu outro tio, Brawwo, ora com minha mãe.
Pior foi ver meu tio se despedir com um olhar apreensivo, mas esforçando-se para parecer que estava tudo bem. Não estava. Só mais tarde fui entender. Hoje, das reflexões e lembranças que batem à minha porta, muitas incomodam-me profundamente.
Por exemplo: por que é que quando criança, mesmo percebendo que a situação de meu mundo havia mudado de alguma forma, que os adultos estavam aflitos, e que me era negada a inteireza dos fatos, eu continuava brincando com meus carrinhos de madeira e sonhando sempre? Por que será que nada me assombrava e eu tinha no coração e no pensamento fartos punhados de otimismo, esperança e um alheamento saudável, protetor?
Lembro-me bem de uma tarde fria, que enquanto meus pais faziam contas e discutiam ásperamente, eu observava a chuva fina desenhando onças pintadas na parede branca dos vizinhos. Agora, passado tanto tempo, sinto que o otimismo farto e a esperança não pertencem-me mais. Ou se ainda pertencem, estão bem escondidos, trancados a sete-chaves, de forma que eu seja obrigado a lidar sempre com perdas e dores, o que não acontecia enquanto fui criança.
Esta reflexão incomoda-me por que, agora entendo que para valer-me dos punhados de otimismo e esperança, preciso jogar por terra um monte de certezas e recorrer à fé. Uma fé que não venha dos homens, mas sim do meu próprio coração. Uma fé que me permita continuar a enxergar as onças pintadas que a chuva fina ainda desenha na parede branca dos vizinhos.
Pior foi ver meu tio se despedir com um olhar apreensivo, mas esforçando-se para parecer que estava tudo bem. Não estava. Só mais tarde fui entender. Hoje, das reflexões e lembranças que batem à minha porta, muitas incomodam-me profundamente.
Por exemplo: por que é que quando criança, mesmo percebendo que a situação de meu mundo havia mudado de alguma forma, que os adultos estavam aflitos, e que me era negada a inteireza dos fatos, eu continuava brincando com meus carrinhos de madeira e sonhando sempre? Por que será que nada me assombrava e eu tinha no coração e no pensamento fartos punhados de otimismo, esperança e um alheamento saudável, protetor?
Lembro-me bem de uma tarde fria, que enquanto meus pais faziam contas e discutiam ásperamente, eu observava a chuva fina desenhando onças pintadas na parede branca dos vizinhos. Agora, passado tanto tempo, sinto que o otimismo farto e a esperança não pertencem-me mais. Ou se ainda pertencem, estão bem escondidos, trancados a sete-chaves, de forma que eu seja obrigado a lidar sempre com perdas e dores, o que não acontecia enquanto fui criança.
Esta reflexão incomoda-me por que, agora entendo que para valer-me dos punhados de otimismo e esperança, preciso jogar por terra um monte de certezas e recorrer à fé. Uma fé que não venha dos homens, mas sim do meu próprio coração. Uma fé que me permita continuar a enxergar as onças pintadas que a chuva fina ainda desenha na parede branca dos vizinhos.
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