sexta-feira, 9 de abril de 2010

Noites de chuva


Bumba
Prazeres
terra de lixo
serpente de língua negra
metano
metas do cão
mortes
dias e noites
omisso Poder/

E assistir chover
na tv
a dor
na terra do sol
do sorriso
triste final
de vidas
que escorrem agora
no chorume
fétido
do pleito eleitoral

quarta-feira, 17 de março de 2010

Declaração de amor à Escolhida

Regozijo em Deus
Pois envoltas no silencio das estrelas
E trazendo todos os perfumes de flores
Vieram bruxas, fadas, sereias e damas de ouro
das mais remotas ilusões
amazonas em carnes do desejo
cavalgando no vendaval de volúpias
chicotes de línguas sôfregas atiçando o meu desejo
afagando o meu orgulho
acenando aos meus sentidos com todos os prazeres do mundo

(Mas ressalte-se, em nome de Deus)
a nenhuma coube a primazia
De possuir-me por inteiro
Como a Escolhida possui-me
Desde o primeiro dia
E agora cada vez mais
Para sempre até depois do fim

pois que a Escolhida prende-me em correntes
feitas do divino aço do amor incondicional

Portanto não há mais por que fugir
nem que perdoar
nem porque sofrer
Há sim, que regozijar/
Pela Escolhida
Que me escolheu
Sempre me acolheu

Me incensando de amor
e de Deus///

segunda-feira, 15 de março de 2010

A nutricionista

Estalam gemas douradas
ouro fugaz/
gás/
e a trempe crepita ao fogo/


Frigir de ovos
veias esturricadas
fuligem
enjôo
vertigem/


As enzimas violentadas implodem/
plástica encardida
de pastéis bêbados/
calombos de vento
que dançam
em borbulhante óleo de escuridão sem fim/


Arrôtos amargos
azia
gôgo
refluxo da saliva verde
que brota de profundezas dilapidadas
vidas saturadas/


Depois
a putrefação do fígado
de aminoácidos reféns/
e tripudia assassina
a macilenta borra de banha translúcida/
cheiro doce de vela/


A fome é demente/
atroz e impertinente
súbita
voraz/


E mais louco ainda/
mais/
é quem na ceia envenenada
se satisfaz//


Se a vida começa pela boca/
a morte também/sim
são ventres protuberantes
inchaço
lerdeza/
enfastiado bocejo/
nenhum desejo mais/


Comida doente
fritura
tritura
rojão/


Dor de barriga profunda
fedor/
peido/
peidão//


Estalam gemas douradas/
boiam pastéis bêbados/
óleo de escuridão sem fim//

30/10/2002

sábado, 6 de março de 2010

Desencanto

Há uma mulher
que ora sim
ora não
gosta de versejar/


Mulher de fino trato
de cujo retrato da alma/
pude bisbilhotar
versos ainda não revelados/

Não gostei do que vi/
por que velado como o filme
quando a luz do sol invade a escuridão da câmera
encontrei sua forma de enxergar as coisas da vida/

A desesperança cobriu sua alma
a escuridão corrompeu a sua alegria
e desfocou seu olhar de futuro/

Não há mais fé em um novo dia/
e a mulher não faz mais amor
nem sabe dizer bom dia//

Esquifes

Lá vem a moça bonita
tão bela que os raios do sol a seguem
afugentando todas as sombras da vida/
Estátua!
Quero vê-a passar
antes que o tempo impiedoso
venha sua beleza roubar /

(E ela então passa diante de meus olhos)

Arranca do relógio tempo prá fazer tudo o que quer
e faz/
e traz as cores/
traz a alegria/
com inocente rebeldia
com desprendimento/
com doce energia/

E tão absorta no prazer de viver
Nem percebe que do outro lado da rua/
real e fria/
consulta as horas pacientemente
a velha senhora da Funerária Santa Luzia/

Caminhada

O que penso
não sei de onde vem/
nem por quê/
Mas juro
se soubesse não pensaria muito do que penso/
destruiria a fonte/

The end pensamentos que me atormentam
que incomodam/
Pensamentos mórbidos
inconvenientes
lenientes
indecentes
ilusórios
de dar medo e fraqueza/

Ou pensamentos surpreendentes - este sou eu?
De instintos vis
assassinos
juiz e réu/

Ou pensamentos contritos
tementes a Deus
fiéis/
reverentes
Madre Teresa de Calcutá/
Ou mar de emoção
de chorar
e fazer chorar/

Neste momento penso nos olhos daquela mulher/
sereia distante do mundo/

bela e desnuda/
que passou por mim há instantes /

Ela e os seus pensamentos secretos/
caminham livres na areia da praia/

E eu penso no que ela pode estar pensando/
quando entram porta adentro as fantasias minhas/

Aliás, você que me lê agora está pensando em quê? Seja franco.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Vaidades

A flor
olha para o céu/
o céu finge que não vê/
e acena ao sol
mas o astro-rei não sorri mais/
não enxerga abaixo do nariz//

Enquanto isso aviões de guerra sobrevoam o mar do Golfo
E a flor magoada com o vento já odeia também/
recusa o beijo do beija-flor/
nem se incomoda mais com o tempo/
nem exala mais perfume
e sucumbe/
entristece o florista/
desdenha das vidas que serão ceifadas /

Naquele dia nenhum pássaro cantou mais
E nenhum gesto escapou às sentenças do alcorão/
Quando foi dado o primeiro tiro/
jornalistas do mundo inteiro contraíram maxilares
história dejavú/
rotos versus militares/
dor/

Era madrugada no Rio
quando os mísseis da América começaram a desabar sobre o Iraque/
Saddam já não lavaria mais as mãos sob torneiras de ouro/
provaria depois da própria forca/
na sentença de noite oculta
verdugos ianques/
nas ruas os tanques/

É sempre assim
quando mandam no mundo as vaidades/
Eclesiásticos/
Homem mata homem///
em Bagdá ou na Rocinha/
e o perfume das flores
serve apenas aos defuntos
que apodrecem/
sob cal e cimento/
ou ao relento/
Lamentos//

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Meditação durante a travessia de barca

Versos navegam
ao balanço das ondas
porque arfa sofrego
um azul oceano de amor
lambendo as entranhas da Terra/

Em vai e vem desassossegado
barbas brancas de Netuno
explodem nas rochas prata de Boa Viagem
e sou tocado pela brisa de sal
que viaja desde as costas africanas/

o mar lambe as entranhas da Terra
o doce balanço do mar
é quando deito ao chão as armas da razão
fecho os olhos
navego
navego/

Nenhum governo/

O pensamento flui livre
ousado
desencontrado
prescrutante
insidioso
ressentido
sonhador
até aquietar-se na paz do nada/

A inexistência reluz diamante
quando cerro as pálpebras diante do sol/
e forma-se um triângulo de cores fugidias
nos tons do arco-iris
(vê bem o meu olho ciclópico)/

Dançam as ondas
meu corpo inerte na gangorra do Atlântico
nada e tudo param no tempo
hiato na solidão
ilha de mistérios/

Só a madeira range no ferro
enquanto as ondas deslizam no casco da Ipanema
e eu orbito em silêncio abissal/
nos limites da vida e da morte
além do bem e do mal
no mundo que é só meu/

Agora o infinito do céu
é o Atlântico onde singra a minha alma/
Tudo é o mesmo
um só
e nem o tempo existe mais
porque reinam todos os silêncios/

As tagarelices de bordo desvanecem
são rumores longinquos
incompreensíveis como é o fim
acalantos
desencantos
orações/

E navegamos
as ondas
Netuno
Ingá
Iemanjá
as rochas
o silêncio
murmúrios
o meu mundo
as ondas
o balanço
a brisa
o fim/


Passos apressados
a turba/
De novo
do nada
meus medos me sacodem/
trazem no colo os segredos
que um dia a morte vai revelar/

Desembarco
e tudo são versos
se volto ao mundo
e não me chamo Raimundo/
São versos apenas
versos do mar
versos de amor
só por amar//

sábado, 23 de janeiro de 2010

Bem vindos os poetas

Os poetas
que por aqui passaram
deixaram poemas
escritos no céu/
as estrelas
versos de significados simples/
com a simplicidade
de quem chega à cidade grande
com só dois pratos de comida garantidos/
água, café e abrigo/
de sexta até meio dia de domingo/
mas com tanta fé
tanta esperança
que não enxergam as vãs promessas
e sobrevivem/
por que assim como a criança
tanta luz os poetas trazem
que raramente a treva os alcança/

sábado, 9 de janeiro de 2010

FÉ ARRANCADA A FORCEPS

Pela primeira vez em minha vida, Tio Pannajo, veio à minha casa e não tocou o seu inseparável cavaquinho. Sequer o retirou do case. Sequer cantou. Passou o tempo todo compenetrado, ensimesmado. Ora conversando baixo com meu outro tio, Brawwo, ora com minha mãe.

Pior foi ver meu tio se despedir com um olhar apreensivo, mas esforçando-se para parecer que estava tudo bem. Não estava. Só mais tarde fui entender. Hoje, das reflexões e lembranças que batem à minha porta, muitas incomodam-me profundamente.


Por exemplo: por que é que quando criança, mesmo percebendo que a situação de meu mundo havia mudado de alguma forma, que os adultos estavam aflitos, e que me era negada a inteireza dos fatos, eu continuava brincando com meus carrinhos de madeira e sonhando sempre? Por que será que nada me assombrava e eu tinha no coração e no pensamento fartos punhados de otimismo, esperança e um alheamento saudável, protetor?

Lembro-me bem de uma tarde fria, que enquanto meus pais faziam contas e discutiam ásperamente, eu observava a chuva fina desenhando onças pintadas na parede branca dos vizinhos. Agora, passado tanto tempo, sinto que o otimismo farto e a esperança não pertencem-me mais. Ou se ainda pertencem, estão bem escondidos, trancados a sete-chaves, de forma que eu seja obrigado a lidar sempre com perdas e dores, o que não acontecia enquanto fui criança.

Esta reflexão incomoda-me por que, agora entendo que para valer-me dos punhados de otimismo e esperança, preciso jogar por terra um monte de certezas e recorrer à fé. Uma fé que não venha dos homens, mas sim do meu próprio coração. Uma fé que me permita continuar a enxergar as onças pintadas que a chuva fina ainda desenha na parede branca dos vizinhos.