domingo, 28 de fevereiro de 2010

Meditação durante a travessia de barca

Versos navegam
ao balanço das ondas
porque arfa sofrego
um azul oceano de amor
lambendo as entranhas da Terra/

Em vai e vem desassossegado
barbas brancas de Netuno
explodem nas rochas prata de Boa Viagem
e sou tocado pela brisa de sal
que viaja desde as costas africanas/

o mar lambe as entranhas da Terra
o doce balanço do mar
é quando deito ao chão as armas da razão
fecho os olhos
navego
navego/

Nenhum governo/

O pensamento flui livre
ousado
desencontrado
prescrutante
insidioso
ressentido
sonhador
até aquietar-se na paz do nada/

A inexistência reluz diamante
quando cerro as pálpebras diante do sol/
e forma-se um triângulo de cores fugidias
nos tons do arco-iris
(vê bem o meu olho ciclópico)/

Dançam as ondas
meu corpo inerte na gangorra do Atlântico
nada e tudo param no tempo
hiato na solidão
ilha de mistérios/

Só a madeira range no ferro
enquanto as ondas deslizam no casco da Ipanema
e eu orbito em silêncio abissal/
nos limites da vida e da morte
além do bem e do mal
no mundo que é só meu/

Agora o infinito do céu
é o Atlântico onde singra a minha alma/
Tudo é o mesmo
um só
e nem o tempo existe mais
porque reinam todos os silêncios/

As tagarelices de bordo desvanecem
são rumores longinquos
incompreensíveis como é o fim
acalantos
desencantos
orações/

E navegamos
as ondas
Netuno
Ingá
Iemanjá
as rochas
o silêncio
murmúrios
o meu mundo
as ondas
o balanço
a brisa
o fim/


Passos apressados
a turba/
De novo
do nada
meus medos me sacodem/
trazem no colo os segredos
que um dia a morte vai revelar/

Desembarco
e tudo são versos
se volto ao mundo
e não me chamo Raimundo/
São versos apenas
versos do mar
versos de amor
só por amar//

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