quarta-feira, 17 de março de 2010

Declaração de amor à Escolhida

Regozijo em Deus
Pois envoltas no silencio das estrelas
E trazendo todos os perfumes de flores
Vieram bruxas, fadas, sereias e damas de ouro
das mais remotas ilusões
amazonas em carnes do desejo
cavalgando no vendaval de volúpias
chicotes de línguas sôfregas atiçando o meu desejo
afagando o meu orgulho
acenando aos meus sentidos com todos os prazeres do mundo

(Mas ressalte-se, em nome de Deus)
a nenhuma coube a primazia
De possuir-me por inteiro
Como a Escolhida possui-me
Desde o primeiro dia
E agora cada vez mais
Para sempre até depois do fim

pois que a Escolhida prende-me em correntes
feitas do divino aço do amor incondicional

Portanto não há mais por que fugir
nem que perdoar
nem porque sofrer
Há sim, que regozijar/
Pela Escolhida
Que me escolheu
Sempre me acolheu

Me incensando de amor
e de Deus///

segunda-feira, 15 de março de 2010

A nutricionista

Estalam gemas douradas
ouro fugaz/
gás/
e a trempe crepita ao fogo/


Frigir de ovos
veias esturricadas
fuligem
enjôo
vertigem/


As enzimas violentadas implodem/
plástica encardida
de pastéis bêbados/
calombos de vento
que dançam
em borbulhante óleo de escuridão sem fim/


Arrôtos amargos
azia
gôgo
refluxo da saliva verde
que brota de profundezas dilapidadas
vidas saturadas/


Depois
a putrefação do fígado
de aminoácidos reféns/
e tripudia assassina
a macilenta borra de banha translúcida/
cheiro doce de vela/


A fome é demente/
atroz e impertinente
súbita
voraz/


E mais louco ainda/
mais/
é quem na ceia envenenada
se satisfaz//


Se a vida começa pela boca/
a morte também/sim
são ventres protuberantes
inchaço
lerdeza/
enfastiado bocejo/
nenhum desejo mais/


Comida doente
fritura
tritura
rojão/


Dor de barriga profunda
fedor/
peido/
peidão//


Estalam gemas douradas/
boiam pastéis bêbados/
óleo de escuridão sem fim//

30/10/2002

sábado, 6 de março de 2010

Desencanto

Há uma mulher
que ora sim
ora não
gosta de versejar/


Mulher de fino trato
de cujo retrato da alma/
pude bisbilhotar
versos ainda não revelados/

Não gostei do que vi/
por que velado como o filme
quando a luz do sol invade a escuridão da câmera
encontrei sua forma de enxergar as coisas da vida/

A desesperança cobriu sua alma
a escuridão corrompeu a sua alegria
e desfocou seu olhar de futuro/

Não há mais fé em um novo dia/
e a mulher não faz mais amor
nem sabe dizer bom dia//

Esquifes

Lá vem a moça bonita
tão bela que os raios do sol a seguem
afugentando todas as sombras da vida/
Estátua!
Quero vê-a passar
antes que o tempo impiedoso
venha sua beleza roubar /

(E ela então passa diante de meus olhos)

Arranca do relógio tempo prá fazer tudo o que quer
e faz/
e traz as cores/
traz a alegria/
com inocente rebeldia
com desprendimento/
com doce energia/

E tão absorta no prazer de viver
Nem percebe que do outro lado da rua/
real e fria/
consulta as horas pacientemente
a velha senhora da Funerária Santa Luzia/

Caminhada

O que penso
não sei de onde vem/
nem por quê/
Mas juro
se soubesse não pensaria muito do que penso/
destruiria a fonte/

The end pensamentos que me atormentam
que incomodam/
Pensamentos mórbidos
inconvenientes
lenientes
indecentes
ilusórios
de dar medo e fraqueza/

Ou pensamentos surpreendentes - este sou eu?
De instintos vis
assassinos
juiz e réu/

Ou pensamentos contritos
tementes a Deus
fiéis/
reverentes
Madre Teresa de Calcutá/
Ou mar de emoção
de chorar
e fazer chorar/

Neste momento penso nos olhos daquela mulher/
sereia distante do mundo/

bela e desnuda/
que passou por mim há instantes /

Ela e os seus pensamentos secretos/
caminham livres na areia da praia/

E eu penso no que ela pode estar pensando/
quando entram porta adentro as fantasias minhas/

Aliás, você que me lê agora está pensando em quê? Seja franco.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Vaidades

A flor
olha para o céu/
o céu finge que não vê/
e acena ao sol
mas o astro-rei não sorri mais/
não enxerga abaixo do nariz//

Enquanto isso aviões de guerra sobrevoam o mar do Golfo
E a flor magoada com o vento já odeia também/
recusa o beijo do beija-flor/
nem se incomoda mais com o tempo/
nem exala mais perfume
e sucumbe/
entristece o florista/
desdenha das vidas que serão ceifadas /

Naquele dia nenhum pássaro cantou mais
E nenhum gesto escapou às sentenças do alcorão/
Quando foi dado o primeiro tiro/
jornalistas do mundo inteiro contraíram maxilares
história dejavú/
rotos versus militares/
dor/

Era madrugada no Rio
quando os mísseis da América começaram a desabar sobre o Iraque/
Saddam já não lavaria mais as mãos sob torneiras de ouro/
provaria depois da própria forca/
na sentença de noite oculta
verdugos ianques/
nas ruas os tanques/

É sempre assim
quando mandam no mundo as vaidades/
Eclesiásticos/
Homem mata homem///
em Bagdá ou na Rocinha/
e o perfume das flores
serve apenas aos defuntos
que apodrecem/
sob cal e cimento/
ou ao relento/
Lamentos//