segunda-feira, 15 de março de 2010

A nutricionista

Estalam gemas douradas
ouro fugaz/
gás/
e a trempe crepita ao fogo/


Frigir de ovos
veias esturricadas
fuligem
enjôo
vertigem/


As enzimas violentadas implodem/
plástica encardida
de pastéis bêbados/
calombos de vento
que dançam
em borbulhante óleo de escuridão sem fim/


Arrôtos amargos
azia
gôgo
refluxo da saliva verde
que brota de profundezas dilapidadas
vidas saturadas/


Depois
a putrefação do fígado
de aminoácidos reféns/
e tripudia assassina
a macilenta borra de banha translúcida/
cheiro doce de vela/


A fome é demente/
atroz e impertinente
súbita
voraz/


E mais louco ainda/
mais/
é quem na ceia envenenada
se satisfaz//


Se a vida começa pela boca/
a morte também/sim
são ventres protuberantes
inchaço
lerdeza/
enfastiado bocejo/
nenhum desejo mais/


Comida doente
fritura
tritura
rojão/


Dor de barriga profunda
fedor/
peido/
peidão//


Estalam gemas douradas/
boiam pastéis bêbados/
óleo de escuridão sem fim//

30/10/2002

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