quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A garçonete

Servir refeições
é ato de amor
de amar/
Ao outro o prazer
do ser
saciar/

E afastar do espírito
do corpo inquieto
misteriosa dor/

Dor de espasmos
de buraco
de ânsia vazia
tremores da fome
músculos sem força
da face branca cor
servir refeições é o amor/

Ato tão bonito que reluz
na prata
brilho do talher/
primazia de homem
primazia de mulher

supremacia do bem querer
dos gestos de ternura
das alvas mãos
que dobram em losango
guardanapos de linho bordô
das terrinas
do azeite
das velas a luz
Tão bonito que reluz

Depois/
consumado o ato
findo o vinho
morango banhado em chantilli/
café/
eis então que a garçonete admira em silencio
reverente/
o bem que fez// a vida que refêz
inclina-se ligeiramente
e de coração diz: volte outra vez !

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Fantasias

Fim do ato/
atamos fivelas
abotoaduras
e botões/

Desatamos ternura
ajeitamos os cabelos/
-A conta por favor:
água mineral e sonhos de valsa/
nada mais /

-Esquecendo alguma coisa?
Recolhemos tudo?
Relógios
cordões
pulseiras
anéis e alianças/

Lembranças
desejos
carteira
celular
óculos - as chaves do carro/

-Nada mais?
-Nada mais...
-Ah! As nossas máscaras
já íamos esquecendo...

Coração Satélite

Fui comer canjica em Brazlândia
comi cultura
acordes ao longe da sanfona
desse Brasil de meu Deus/
dos índios fumando light
escarrando mentiras capitais/

e os discursos?
lindos de matar
refletidos no espelho de água suja do Palácio central//
Assombração de JK no Monumental/
Mortos vivos retornados de Monte Castelo

Lá vamos de mãos dadas
Eu e mais ninguém/
Rodoférrea vontade de abraçar o chão vermelho/
gritar nas entranhas do mundo que eu quero tudo isso
fria Brasília que estou amando/
porque brasileiro das várias línguas
de cada torrão de lixo estrutural
eu sou/

Eu e mais ninguém/

( Depois da fala de um mendigo bêbado, pregando o evangelho em frente ao Conjunto Nacional, na Asa Norte).

Lexotan

Diga-me madrugada, por que tanto silêncio?
nada zune no céu, nem ecoa, ou destoa/
tudo vaga solenemente/
estrelas, astros, asteróides/
poeira cósmica/
Ariádne, ferragens/
meteoros/
Ondas de rádio/ radiação
balão proibido de São João//
Vagam também os pensamentos/
fluem desencontrados
alegres ou tristes/
profanos ou glorificados/
loucos
criativos
criminosos
malcriados
(O silêncio do universo é a essência da solidão de Deus)
Já passam minutos desde a hora primeira do novo dia
e nada de novo em Órion ou Escorpião/
Apenas luzes renitentes que vagam absortas em nada/
Insignificâncias
brilho difuso
satélite de Canaveral/
desnudando a Terra/
retransmitindo o carnaval
(voyeur na vastidão das galáxias)

Volto à cama inóspita
e deito-me ao lado da mulher amada/
Ela tem a face crispada/
metade enfiada no travesseiro perfumado/
mas a boca entreaberta,
fria,
revela o secreto fim/
A paixão e o desejo já partiram//

Deus Profano

( Dedicada à minha amada amiga, a poeta Selma Rocha)

Viva a poesia!
Deus é poeta!

Fez o verbo
o romance
o adeus/
a paixão
a dor
flores e cartas de ternura no lixo!
por isso/
poesia/
mesmo no desamor/

Fez desilusão
desejo
solidão
fantasia/
por isso
Deus é poeta/
dono do verbo
senhor da emoção/
nos desencontros/
no fim de tudo/
na imaginação/
há poesia//

ou algum poeta afirma que nisto que escrevo
figura indecente e tosca heresia?

O design de nossas almas?
Nada mais são do que versos soltos/
Aliás, nada fez Deus além de poesia/
o resto foi a filosofia/
obra indelicada de outro qualquer/
que prometeu e não cumpriu/

O amor é poesia
o ódio é ateu//
Deus escreve alegrias/
poesias/
e amanhece todos os dias
ao lado meu/
ao lado seu//

Coleção

“Algumas pessoas colecionam
corujinhas de pedra sabão /
Outras,
pinguim de geladeira
ou miniaturas faceiras,
de ferraris, mustangs ou avião/
Eu coleciono estrelas /
tiradas do céu de sua boca//

Filhos

Os filhos nos arrancam lágrimas
quando menos esperamos
ou queremos /
Sopro de dor
vergão incandescente
varando coração//

Lágrimas de tristeza
compaixão
arrependimento
remorso
Medo
saudade
solidão //

Os filhos também nos arrancam
lágrimas de alegria /
Mas por força do amor
ou da ironia /
são as lágrimas de tristeza
as que mais vêm bater
à nossa porta/
nos dizer
bom dia//

Spam

Não vejo as letrinhas de Quintana//
nada anexado
no email que vc mandou/

ou insensível que sou
ou triste/
de olhos fechados para a poesia - desnorteado
andarilho
avexado/

Ou então
ainda um homem do século XX
quando já varamos o XXI
e da modernidade
tem tanto temor/
mas tanto temor/
que não ousa lidar com computador/

Encaixes

Agendas,
sempre as agendas;
dia sim
dia não;
horas vagas
ou noites/
bem- me- quer
mal- me- quer
lua
sol
romeu
julieta
marron glacê/
Mas pensando bem,
em minha agenda já não cabe mais nada/
nada mesmo/
além de você//

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Rituais

16/ago/2005


Quando falo com homens
todos de política e negócios
E tratamos de tudo
Dos concretos
decisões
Destinos e dasatinos/
Retesamos
Sérios que somos/
E trincamos e rangemos dentes
Aço que pretendemos ser/

Enquanto isso passa a vida/
passam as poesias

Gênesis

A vida começa pela boca
pelo beijo
desejo/
beijo viril
consentido ou roubado/

O fim também vem da boca/
pelos lábios/
no silêncio
no verbo
o verme//

Depois então
na solidão do mármore
No doce perfume das flores fúnebres
beijos desesperados
beijos de dor
escancarados
doentios//

Beijos que selam o fim
beijos secretos
beijos e lágrimas
boca de morte
beijo de Iscariotes no filho do Pai
lábios frios/
adeus